Francisco Brennand abre as portas de seu universo fantástico para a Vogue

A 20 minutos de carro do agitado centro de Recife, entramos em uma estrada de terra que nos coloca em meio à densa mata que acompanha o rio Capibaribe. Bastam poucos quilômetros para que a floresta se abra e deixe à mostra galpões construídos em 1917 e enormes esculturas de cerâmica que podem nos remeter tanto a personagens da mitologia grega quanto a monstros medievais – seres imaginários,boa parte deles com forte carga sexual.000

Quem nos recebe na porta desse universo fantástico criado pelo pernambucano Francisco Brennand é sua sobrinha-neta Marianna Brennand Fortes, autora de um premiado documentário que conta a trajetória do artista, lançado em 2012. À frente da produtora e editora Inquietude, a brasiliense radicada no Rio realiza este mês o grande sonho do tio-avô: publicar,comele ainda em vida, os diários que Brennand escreve há mais de meio século.

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O artista, que completa 90 anos em junho próximo, nos espera em seu amplo ateliê, em um dos galpões da oficina – uma antiga olaria fundada por seu pai, transformada em museu a céu aberto por ele em 1971. Hoje, em seu espaço particular de trabalho, cavaletes e pincéis estão quase submersos entre dezenas de estantes de livros que sobem até o teto. Já na entrada, avisto em sua escrivaninha um exemplar do recém-lançado romance do escritor britânico Ian McEwan – derrubando de cara a ideia de que a idade avançada e o isolamento em que vive desde os anos 70 o tenham deixado habitar em um universo paralelo.

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“Atualmente,também assisto a The Walking Dead”, dispara ele, referindo-se à série da Fox, febre atual entre os jovens, que fala sobre zumbis. Essa ânsia pelo saber, chamada de “antropofagia brennaniana” pelo curador Paulo Herkenhoff na introdução dos diários, é o que o torna mais que um grande artista – é também um dos maiores intelectuais brasileiros de seu tempo. “Ariano Suassuna batizou nosso trio [formado por Brennand, a primeira mulher do escultor, Deborah, e o escritor] de Academia dos Emparedados, porque, apesar de passarmos dias discutindo seu destino, o mundo nos ignorava”, brinca ele, relembrando saudosamente o grande amigo, morto em 2014.

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Mesmo conversando com desenvoltura sobre assuntos que vão da moda (“ela nos dá a noção de tempo”) às eleições nos Estados Unidos, fica claro que a grande amante de sua arte sempre foi a literatura. “A leitura é um vício tão forte quanto o ópio ou a cocaína. Eu não conseguiria viver sem ela”, diz..

São os romances, as biografias, os poemas e contos que leu durante a vida que servem de fio condutor para as 2.000 páginas, divididas em quatro tomos, que compõem o belíssimo Diário de Francisco Brennand (R$ 100). “Na adolescência, descobri que grandes pintores como Van Gogh, Paul Gauguin e Eugène Delacroix eram ávidos escritores. Assim, aos 20 anos, achei que poderia fazer o mesmo e decidi começar a escrever minhas memórias.”

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Outro ponto alto de seus diários é a descoberta da cerâmica como suporte artístico, que aconteceu em uma exposição de Picasso, durante a temporada em Paris no fim dos anos 40. “Fiquei maravilhado e ao mesmo tempo humilhado.Como é que uma pessoa nascida dentro desse universo como eu passou 22 anos ignorando essa admirável forma de expressão?”, escreve ele. Afinal, Brennand cresceu dentro da antiga olaria do pai. “Eu e meus irmãos sempre tivemos uma fixação com esse lugar. Foi aqui que vivemos alguns dos melhores momentos da nossa infância”, conta o artista.

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Depois de instalar seu ateliê ali na década de 70, ele dedicou os anos seguintes à produção das gigantescas esculturas que se espalham hoje pelos mais de 15 mil m² de área construída do espaço, que conta ainda com um fabuloso jardim projetado pelo paisagista Burle Marx. E o artista segue até hoje em plena produção. Este mês, além da caixa comseus diários,inaugura em Recife uma exposição no Espaço Brennand, no bairro de Boa Viagem, com 20 pinturas inéditas de paisagens, todas feitas este ano e inspiradas na obra do pintor alemão Caspar David Friedrich. “Agora, no fim da vida, me volto novamente à pintura, minha primeira expressão artística.Ter diários de uma vida e obras inéditas sendo lançadas no mesmo mês é maravilhoso. O que mais posso querer?”

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Fonte: Vogue, acesso em 06/12/2016

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